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Por que não encontro meu sobrenome na parede da exposição do museu?
Henrique Trindade – Coordenador de Formação e Educativo do Museu da Imigração
A parede de sobrenomes no Museu da Imigração, localizada na exposição de longa duração intitulada "Migrar: Experiências, Memórias e Identidades", desempenha um papel significativo na experiência museológica dos visitantes. Essa instalação, constituída por milhares de sobrenomes entalhados na madeira, atrai a atenção de todos, muitos dos quais dedicam considerável tempo durante a visita na esperança de encontrar o seu próprio sobrenome. Alguns têm sucesso nessa busca, enquanto outros saem um tanto frustrados, planejando tentar novamente em futuras oportunidades.
Diante da demanda por uma abordagem tecnológica para facilitar a busca, com perguntas sobre a ausência de um dispositivo que indique a localização específica dos sobrenomes desejados, ou questionamentos sobre a não organização alfabética da parede, é crucial explorar a função intrínseca dessa instalação sob uma perspectiva museológica e conceitual mais ampla.
A reflexão sobre a natureza da parede de sobrenomes revela que seu propósito não é meramente oferecer um diretório de ancestralidade ordenado e eficiente. Em vez disso, ela se propõe a estimular a reflexão dos visitantes sobre a complexidade e diversidade das histórias de imigração para o Brasil. Ao desafiar a expectativa de uma organização alfabética convencional, a parede convida os visitantes a considerarem se a busca por uma identidade e história familiar deve seguir uma ordem predefinida.
A presença de aproximadamente 12 mil sobrenomes, alguns repetidos, levanta questões provocativas sobre a unicidade de histórias associadas a sobrenomes específicos. Podemos pensar se todos os "Silva" no Brasil, por exemplo, compartilham a mesma narrativa ou origem. É importante refletir sobre a necessidade de reconhecer a riqueza e complexidade das experiências individuais dentro de grupos aparentemente homogêneos.
O questionamento sobre o significado do sobrenome ganha ainda mais profundidade quando inserido no contexto da parede. Considerando a reflexão proposta anteriormente sobre a função dela como um convite à contemplação da multiplicidade de histórias migratórias, a indagação sobre o significado pessoal do sobrenome torna-se um ponto de conexão entre a experiência individual e a narrativa coletiva.
O sobrenome, muitas vezes encarado como um simples rótulo, revela-se, como um veículo complexo de identidade e memória. A possibilidade de redescobrir uma origem desconhecida, a construção de novos laços e a consideração do sobrenome como legado destacam a dimensão dinâmica desse elemento aparentemente estático. Não é apenas uma designação fixa, mas uma entidade viva que evolui ao longo do tempo, conectando passado e futuro na experiência de cada indivíduo.
Aliás, o seu sobrenome representa o que lhe deram ou que tiraram de você? Isso ecoa com a parede de sobrenomes, que desafia certa expectativa, convidando os visitantes a questionarem e interpretarem a sua própria história familiar, entrelaçada com os diversos e muitas vezes perversos processos históricos da construção do nosso país.
Uma reflexão sobre a presença do sobrenome em diferentes territórios e tempos ressoa com a proposta museológica da parede de sobrenomes, que transcende fronteiras físicas e temporais, conectando visitantes a uma rede de narrativas migratórias. As variações de grafias e sotaques dos sobrenomes refletem a diversidade linguística e cultural das experiências migratórias, reforçando a ideia de que cada sobrenome é um fragmento de uma história mais ampla, sempre em movimento.
Ao abordar a ancestralidade e as histórias de lutas, perdas e expectativas associadas aos sobrenomes, a reflexão se alinha à missão do Museu da Imigração de preservar e transmitir as histórias humanas por trás dos registros, no passado e no presente. O sobrenome, nesse contexto, é um elo que conecta gerações, um fio condutor que nos liga a memórias distantes e nos faz refletir sobre a jornada coletiva da humanidade.
Se o sobrenome é motivo de orgulho ou esquecimento, isso se torna um reflexo pessoal que se entrelaça com a narrativa mais ampla da parede de sobrenomes, reforçando a noção de que a identidade é uma construção dinâmica e multifacetada.
Assim, o que o sobrenome representa para cada indivíduo torna-se um ponto de partida para um processo de autoconhecimento e reflexão sobre a complexidade das histórias que nos moldam e conectam à uma história mais ampla.
Observar a parede de sobrenomes, portanto, transcende a simples busca por um nome de família. Ela se configura como uma oportunidade para os visitantes refletirem sobre a multiplicidade de histórias que contribuíram para a formação da narrativa das migrações para o Brasil. A variação e repetição dos sobrenomes sugerem que cada história é única, e a parede se torna um ponto de convergência para a compreensão das diversas trajetórias que compõem o tecido cultural do país.
Em contraste com a limitação da parede para fornecer registros concretos dos antepassados, a sugestão de explorar o acervo digital do Museu da Imigração destaca a complementaridade de diferentes abordagens na pesquisa histórica. Enquanto a parede inspira a contemplação e a conexão emocional, o acervo digital oferece uma fonte mais detalhada e precisa para aqueles que buscam informações concretas sobre suas raízes familiares.
Dessa forma, a parede de sobrenomes se revela não apenas como uma representação visual, mas como um dispositivo provocativo que instiga os visitantes a explorarem a complexidade da história migratória do Brasil, convidando-os a considerar a riqueza das narrativas individuais e a importância da reflexão em contextos museológicos.
Em 2020, o Museu da Imigração inaugurou uma instalação temporária em uma sala vizinha à parede de sobrenomes. Essa instalação convidava o público para uma reflexão mais profunda sobre o significado dos sobrenomes e também possibilitou, por meio de uma campanha nas redes sociais, a inclusão de sobrenomes nessa ação. Abaixo é possível ler o texto integral narrado pelo apresentador e jornalista Pedro Bial, que descobriu somente em 2019 que o seu pai passou pela Hospedaria de Imigrantes do Brás, em 1940, escapando à perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Os links para o vídeo da instalação e para acesso ao acervo digital do Museu da Imigração seguem no final do texto:
“O que o seu sobrenome representa para você?
São vidas que passam dentro da sua própria vida?
É a possibilidade de redescobrir uma origem desconhecida? Talvez um novo laço construído? É o legado que um dia você pode e deseja deixar?
É seu passado, mas também seu futuro.
Ele é símbolo do apagamento de sua história ou é a construção da sua identidade?
O sobrenome que você tem significa o que lhe deram ou o que tiraram de você?
O sobrenome pode ser um elo no desterro, das poucas coisas que lhe representam em diferentes territórios e tempos de sua vida.
Em que lugares seu sobrenome está?
Com quantas variações de grafias e sotaques ele existe?
É um fragmento? É sempre chegada e partida.
Ancestralidade, histórias de lutas, de perdas, angústias e tantas expectativas. É o passado de toda humanidade que se reapresenta a cada geração nos conectando com memorias distantes. Nesse prédio foram registradas milhões de pessoas de diversas nacionalidades. Seu nome de família está aqui? Muitos deles, de ontem e de hoje, agora se misturam e se encontram nesse espaço. Quais continuaram sem estar?
Aqui, nessa mesma sala, passaram tantas pessoas que tinham esperança de um recomeço, o desejo de iniciar uma nova caminhada em busca de oportunidades ou de sobrevivência. Histórias únicas, mas que se repetem no contexto atual e nos fazem refletir sobre a consequência de um ato de coragem, de como chegamos até aqui e o que será de nós amanhã. Há uma porta que se abre ao dizer seu sobrenome? É orgulho ou motivo de esquecimento?
O que o seu sobrenome representa para você?”
Acervo Digital do Museu da Imigração: https://acervodigital.museudaimigracao.org.br/